
Cerca de 30 pessoas, entre alunos da Academia Sénior da CURPI de Campo Maior e habitantes de Ouguela, deslocaram-se na passada terça-feira, 22 de setembro, à Feira de São Mateus, em Elvas, numa visita marcada pela tradição, pela partilha e pelas memórias de outros tempos.
A iniciativa contou com o acompanhamento de Anselmina Caldeirão, presidente da Junta de Freguesia de São João Batista e da CURPI de Campo Maior, que destaca a importância de manter viva a ligação das populações às tradições da região.
“Ao fim e ao cabo, esta festa também é uma festa de Campo Maior”, começa por dizer Anselmina Caldeirão em entrevista à Rádio ELVAS, que considera que, apesar de Campo Maior ter celebrado recentemente as Festas do Povo, era importante marcar presença na Feira de São Mateus, dado tratar-se de uma tradição que faz parte das memórias de várias gerações.
“Não quisemos de forma alguma não estar presentes nesta grande festa, que faz também parte da vivência destas pessoas que eu aqui trago”, afirma.
Durante a viagem até Elvas, as histórias do passado foram também recordadas. Segundo a presidente da CURPI, alguns dos participantes lembraram os tempos em que se deslocavam à feira para acampar. “Elas vinham a contar histórias engraçadíssimas de há anos, em que aqui vinham acampar, faziam a animação desta mesma festa, que hoje em dia já não será tanto assim. Mas nós não queremos que nada disto morra”, assegura.
A intenção, acrescenta Anselmina Caldeirão, é garantir que estas memórias e tradições continuam a ser transmitidas às gerações mais novas.
“Sem as camponesas não era Feira de Elvas”
Entre os visitantes estava Idaulina Borrega, aluna da Academia Sénior da CURPI de Campo Maior, para quem a Feira de São Mateus está profundamente ligada às memórias da infância e às antigas deslocações dos campomaiorenses à “Feira de Elvas”, como também era conhecida entre as gentes da vila.
“Sem as camponesas não era Feira de Elvas”, afirma Idaulina, lembrando a tradição das famílias que se deslocavam em grupo e permaneciam vários dias no recinto. As viagens faziam-se nos tradicionais carros de canudo, carregados com tudo o que era necessário para a estadia.
“Trazíamos a casa às costas como o caracol: trazíamos as galinhas atadas pelas patas, para fazermos a canja e essas coisas”, recorda.
A memória da primeira visita à feira remonta aos seus seis ou sete anos, quando acompanhava os pais. “Vínhamos, trazíamos tudo e ficávamos aqui na mata. Quando chegávamos, já tínhamos um lugar marcado pelo meu tio. Era só chegar e acampar. Mas era muito, muito, muito bom”, garante.
“Era assim o São Mateus”
Também João Carapinha, habitante de Ouguela, recorda as visitas à Feira de São Mateus, que remontam a mais de seis décadas.
Com humor, lembrou as dificuldades que o antigo piso de terra e barro criava aos visitantes, especialmente às mulheres que usavam sapatos de salto alto.
“Este chão era em barro. As senhoras traziam os sapatos de tacão alto e perdiam os sapatos aqui. Ficavam os sapatos e elas iam andando”, conta.
João Carapinha começou a frequentar a feira com cerca de 15 ou 16 anos. Nessa altura, a estadia era feita com poucos recursos e onde fosse possível. “Dormíamos acima de um banco qualquer. Era onde se podia”, recorda.
Com cerca de 20 escudos no bolso, os jovens, tal como ele nessa altura, procuravam aproveitar ao máximo os dias de festa. O dinheiro servia essencialmente para comer e beber, entre uma ida à cidade e os momentos passados na Piedade. “Bebíamos qualquer coisa e comíamos”, lembra, recordando a cerveja e o vinho, mas sobretudo os tradicionais petiscos.
“Íamos aí às barracas. A poeirada das pessoas a andar e nós ali sentados a comer um franguinho, uma saladinha… Era assim o São Mateus”, remata.
Entre histórias de acampamentos, viagens em carros de canudo, galinhas levadas para preparar as refeições e noites passadas no recinto, a visita da Academia Sénior da CURPI de Campo Maior e dos habitantes de Ouguela serviu, assim, para aproximar o presente das memórias de várias gerações.
Mais do que uma simples visita à Feira de São Mateus, esta visita ao certame foi uma oportunidade para recordar uma tradição partilhada e reafirmar a vontade de manter vivas histórias que fazem parte da identidade das comunidades de Campo Maior e Elvas.















