Royal Pop
Como a Audemars Piguet e a Swatch criaram o fenómeno que ninguém esperava — e o caos que se seguiu
2026 · Edição Especial
Existe uma contradição no coração de qualquer marca de luxo: para ser desejada, tem de ser inacessível. Mas para sobreviver, precisa de novos clientes. Durante décadas, a Audemars Piguet resolveu essa equação sempre da mesma forma.
Produzindo cerca de 50 mil relógios por ano — ainda assim mais 10 mil do que originalmente —, a AP vive da escassez e mantém listas de espera que duram vários anos. Mas este ano decidiu fazer algo surpreendente: associar-se à Swatch, que vende mais de 3 milhões de relógios por ano.
A parceria, batizada Royal Pop, tornou-se um dos fenómenos mais improváveis da relojoaria recente. O luxo tradicional está a tentar perceber como permanecer relevante num mundo onde a cultura digital, os acessórios colecionáveis e a estética das redes sociais ajudam a definir o significado de desejo.
Para ser desejado, o luxo tem de ser inacessível. Mas para sobreviver, precisa de novos clientes.
A contradição fundamentalA coleçãoO que é o Royal Pop?
A coleção parte de um ícone: o Royal Oak, desenhado por Gérald Genta em 1972. Com um design inconfundível — luneta octogonal, oito parafusos hexagonais e o padrão de mostrador conhecido como Petite Tapisserie — pode custar dezenas de milhares de euros. O valor elevado não faz diminuir a lista de espera, apenas colmatada pelo mercado de segunda mão, que continua a crescer.
De acordo com um relatório da Deloitte, o mercado de revenda de relógios de luxo poderá superar o primário dentro de apenas uma década, provando que os ícones não perdem valor.
O Royal Pop preserva a mesma linguagem visual — bisel octogonal, parafusos e padrão do mostrador —, mas não é o esperado relógio de pulso. A Swatch e a AP criaram oito relógios de bolso em biocerâmica colorida, inspirados simultaneamente no Royal Oak e nos Swatch Pop lançados em 1986.
Ao optar por um relógio de bolso, a Audemars Piguet evitou o cenário que mais inquieta os colecionadores: o aparecimento de uma réplica acessível do Royal Oak tradicional. Os novos relógios podem ser usados ao pescoço, pendurados numa mala, transportados no bolso ou colocados sobre uma superfície como objetos decorativos.
No interior encontra-se uma versão de corda manual do movimento SISTEM51 da Swatch, com reserva de marcha superior a 90 horas e espiral antimagnética Nivachron. O preço em Portugal varia entre €380 e €400, consoante as cores.
LançamentoO caos que se seguiu
Na manhã do lançamento, havia filas à porta das lojas Swatch em todo o mundo. Em Lisboa, a situação na loja do Centro Colombo foi semelhante: centenas de pessoas em fila para poucas dezenas de unidades. Nos mercados de revenda, os relógios apareceram imediatamente por valores próximos dos €2000 — cinco vezes o preço original.
No Reino Unido e nos Países Baixos, algumas lojas encerraram por razões de segurança. Em França, a polícia teve de intervir com gás lacrimogéneo para dispersar uma multidão de cerca de trezentas pessoas junto a uma loja perto de Paris. Em Nova Iorque, a inauguração da loja da Swatch em Times Square ficou marcada por empurrões e tumultos.
AnáliseO próximo Labubu?
A comparação com o Labubu — o boneco colecionável da Pop Mart que se tornou viral em todo o mundo — não é acidental. Ambos partilham a mesma fórmula: escassez controlada, lançamento surpresa, distribuição física que gera filas e uma comunidade online que amplifica o desejo muito além do valor intrínseco do objeto.
O Royal Pop é, ao mesmo tempo, um relógio, um acessório de moda, um objeto de coleção e um instrumento financeiro. É a prova de que, no séc. XXI, o luxo não se define apenas pelo preço — mas pela capacidade de gerar um momento cultural.














