O Município de Montemor-o-Novo pretende continuar a reforçar a oferta de habitação no concelho, através da recuperação de património municipal, da cedência de lotes para autoconstrução e da criação de novas soluções em parceria com instituições e proprietários privados.
A estratégia surge num contexto que o presidente da Câmara Municipal, Carlos Pinto de Sá, considera marcado por uma “crise grave de habitação” no país, com dificuldades que, segundo o autarca, já atingem uma parte significativa da população que não dispõe de casa própria.
Carlos Pinto de Sá aponta, em particular, para a diferença entre os rendimentos das famílias e os atuais preços de compra e arrendamento. Na sua perspetiva, a resposta ao problema exige também uma intervenção do Governo. “Grande parte da população que não tem habitação própria está sujeita a este problema, uma vez que os salários, as reformas são baixas e não dão para atingir os valores que hoje a habitação atinge”, afirma o presidente da Câmara.
Apesar de reconhecer que o município não dispõe de todas as competências ou instrumentos para responder à dimensão nacional do problema, Carlos Pinto de Sá garante que a autarquia continuará a desenvolver medidas ao nível local.
Entre as ações previstas está a recuperação de mais habitações municipais, bem como a cedência de terrenos para autoconstrução a custos mais reduzidos. Segundo o autarca, já foram cedidos cerca de sete a oito lotes para este fim, em várias freguesias do concelho, estando também a ser preparados novos loteamentos em terrenos municipais.
A Câmara Municipal pretende ainda trabalhar com proprietários privados, através da negociação para cedência de terrenos ou de acordos que permitam avançar com novos loteamentos e aumentar a oferta habitacional.
Mas a estratégia municipal poderá abranger também o património habitacional de instituições do concelho que disponham de casas degradadas.
Carlos Pinto de Sá revela que o município pretende apoiar essas entidades na recuperação dos imóveis, caso existam financiamentos provenientes do Orçamento do Estado ou de fundos comunitários. “Queremos que, havendo financiamento por parte do Orçamento do Estado ou dos fundos comunitários, possamos ajudar essas instituições, elas próprias também a recuperar casas, que são imprescindíveis”, explica.
Um dos exemplos apontados pelo autarca é o património da Casa do Povo de Lavre, que dispõe de mais de uma dezena de habitações que poderão ser recuperadas e posteriormente disponibilizadas para habitação.
Para Carlos Pinto de Sá, este tipo de intervenção poderá contribuir para aumentar a oferta habitacional no concelho, aproveitando imóveis que atualmente não estão em condições de ser utilizados.
O presidente da Câmara garante, por isso, que o município pretende “continuar este trabalho” e intensificá-lo, embora reconheça que a autarquia não dispõe dos instrumentos necessários para controlar a evolução dos preços da habitação.
A estratégia passa, assim, por mobilizar o património municipal, apoiar a recuperação de habitações de instituições, disponibilizar terrenos para construção e procurar novas parcerias com privados, numa tentativa de aumentar a oferta de habitação a custos mais acessíveis no concelho de Montemor-o-Novo.
No seu primeiro livro, a mãe de Beatriz Lebre transforma a dor da perda da filha num testemunho pessoal e num alerta para a violência de género. A obra dá a conhecer a jovem mulher alegre, apaixonada pela música, pela literatura e pelas artes, cuja vida foi tragicamente interrompida.
Beatriz, Uma Melodia Interrompida é o título do primeiro livro de Paula Lebre, já disponível nas livrarias de todo o país. A obra nasce da necessidade de contar a história da filha, vítima de homicídio a 22 de maio de 2020, mas assume também uma dimensão de denúncia social, procurando sensibilizar os leitores para a violência contra as mulheres e para a urgência de combater este flagelo.
Em entrevista à Rádio ELVAS, Paula Lebre faz questão de afastar, desde logo, a ideia de que se considera escritora. “Eu não sou escritora. Escrevi um livro, que nem é nada de criativo, é só um relato de uma vida, de um acontecimento e de um sofrimento”, afirma, descrevendo a obra como um testemunho pessoal sobre a filha e as circunstâncias trágicas que marcaram a sua morte.
Mais do que uma homenagem, expressão com a qual não se identifica, a autora considera que o livro pretende chamar a atenção para uma realidade que continua a exigir respostas da sociedade. “Aqui o que está em causa é uma fragilidade da condição humana que é preciso perceber e conter, que é a violência”, sublinha.
Paula Lebre alerta para a dimensão da violência contra as mulheres e para a necessidade de ir além dos números, procurando dar-lhes um rosto e uma história. Através da experiência de Beatriz, espera que os leitores compreendam melhor a gravidade deste problema. “Pelo menos que com a história, as pessoas, pela afetividade que possam sentir, liguem e sintam mais os números, o significado daqueles números grotescos e atrozes”, explica, lembrando que, “são duas mulheres mortas, por mês”, em média, em Portugal.
A mãe de Beatriz critica também a tendência para responsabilizar as vítimas pela violência de que são alvo, questionando os comportamentos e as escolhas das mulheres como se estes pudessem justificar a agressão. “Nada justifica um assassinato, seja mulher, seja homem”, afirma, defendendo que esta forma de pensar tem de ser desconstruída. Para Paula Lebre, a educação é uma das dimensões fundamentais para uma resposta estrutural e coletiva ao problema.
Apesar da dureza dos acontecimentos que relata, “Beatriz, Uma Melodia Interrompida” não pretende ser um livro sombrio. A autora procurou preservar a personalidade da filha e dar a conhecer os seus interesses, a sua alegria e a paixão pelas artes. “Não é um livro sombrio. Não deixa de ser belo, porque tem lá tudo o quanto ela mais amava, que era arte, cinema, música, poesia, literatura”, revela.
A música ocupa um lugar especial na narrativa, funcionando como uma banda sonora que acompanha a leitura. Paula Lebre explica que escolheu canções que faziam parte da vida familiar e da relação com a filha, integrando-as no texto como forma de criar pausas e tornar a experiência de leitura mais envolvente.
“Eu pretendia que fosse uma perolazinha. Não é nenhum diamante literário, nem nada disso, mas que seja uma pérola bonita e que dê prazer às pessoas e que emocione”, afirma, acrescentando que deseja que o livro contribua para que os leitores não se resignem perante a violência.
Um livro nascido da necessidade de compreender
A escrita surgiu de forma inesperada. Inicialmente, Paula Lebre preparava um testemunho para integrar uma compilação de textos sobre a vida de Beatriz, reunidos por amigos. Foi o músico, realizador e escritor Filipe Melo, amigo da filha, quem a incentivou a transformar esse material numa obra autónoma. “Ele é que me disse: ‘Paula, isto não é um testemunho, isto é um livro que tens de fazer à parte’”, recorda. A sugestão foi decisiva para que avançasse com um projeto no qual, inicialmente, não acreditava.
O processo de escrita foi também acompanhado por uma procura de respostas para a tragédia. Durante o luto, a autora dedicou-se à leitura de filosofia, teologia, psicologia e sociologia, procurando compreender o que tinha acontecido e os fenómenos sociais associados ao feminicídio, ao machismo e ao patriarcado.
O texto foi depois trabalhado em conjunto com a editora (Penguin Livros), num processo de organização e revisão que permitiu estruturar os capítulos e definir os momentos de pausa. Paula Lebre descreve o manuscrito inicial como um trabalho em bruto, que foi sendo aperfeiçoado com a colaboração editorial.
A narrativa é assumidamente pessoal, construída a partir da perspetiva de uma mãe que procura compreender a perda e preservar a memória da filha. Tudo o que é relatado, garante, corresponde à verdade, incluindo as dúvidas e as interrogações que continuam sem resposta.
Preservar a memória de Beatriz
Ao longo da entrevista, Paula Lebre recorda a ligação de Beatriz à música e ao teatro, evocando a imagem da filha sentada ao piano, uma das memórias que permanece viva entre aqueles que a conheceram.
Entre as recordações partilhadas está também a canção “Into My Arms”, de Nick Cave, que Beatriz cantava com amigos do grupo de teatro da universidade e que a mãe também cantava com ela. A descoberta desta coincidência, já depois da morte da filha, foi um dos momentos que Paula Lebre descreve como especialmente marcantes.
São estas memórias que ajudam a manter presente a personalidade de Beatriz e que dão sentido à publicação do livro. “A Beatriz tem o nome num livro para não morrer outra vez”, afirma, estabelecendo um paralelo com a atribuição de nomes de pessoas falecidas a ruas, como forma de perpetuar a sua memória.
A autora reconhece que a perda de um filho é uma ferida para toda a vida e que a morte violenta de Beatriz constitui uma rutura que não pode ser comparada a um acontecimento natural. É precisamente por considerar que esta morte não pode ficar sem significado que decidiu transformar a sua experiência num testemunho público.
“Eu não me conforme com a inutilidade desta morte. Esta morte tem que ter um significado. Por isso também o livro”, explica.
Apresentação na terceira edição do ALERtejo em Elvas
A publicação de Beatriz, Uma Melodia Interrompida coincide com a terceira edição do ALERtejo, encontro literário que decorre em Elvas e que, este ano, tem como tema central a escrita no feminino.
Paula Lebre considera a coincidência particularmente feliz, sobretudo porque o livro passou por várias vicissitudes relacionadas com questões jurídicas antes de chegar às livrarias. A apresentação em Elvas, agendada para sábado, 24 de outubro, representa, por isso, mais um momento significativo no percurso da obra.
A autora admite que não está a planear escrever outros livros e insiste que não se vê como escritora. “Desde a morte da minha filha, não consigo prever nada na minha vida, nem consigo planear nada, e todo o meu comportamento tem sido conforme as circunstâncias”, confessa.
Para já, a expectativa é que Beatriz, Uma Melodia Interrompida chegue aos leitores, emocione e contribua para uma reflexão mais profunda sobre a violência contra as mulheres. Um livro que procura preservar a memória de Beatriz e dar visibilidade a uma realidade que não pode ser ignorada.
Beatriz Lebre, uma vida interrompida pelo femicídio
Beatriz Lebre foi uma das 19 mulheres que morreram vítimas de femicídio, em 2020, em Portugal. Na noite de 22 de maio, um colega do curso de mestrado dirigiu-se à casa de Beatriz e, quando ela lhe abriu a porta, agrediu-a brutalmente com um bastão. Depois, transportou o corpo na bagageira do carro e deitou-o ao rio Tejo.
O alegado autor do crime, que não chegou a ser julgado, suicidou-se cerca de um mês e meio depois na cadeia.
A entrevista completa a Paula Lebre para ouvir no podcast abaixo:
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo Maior assinala esta quinta-feira, 22 de outubro, o seu 77.º aniversário, celebrando mais de sete décadas de dedicação, coragem e serviço à população do concelho.
Para assinalar a data, a corporação destacou, numa publicação nas redes sociais, os 77 anos de história marcados pela entrega, pelo sacrifício e pelo espírito de missão, agradecendo a todos os que, ao longo das décadas, contribuíram para o percurso da instituição.
“Aos que estiveram, aos que estão e àqueles que já partiram, o nosso respeito, reconhecimento e eterna gratidão”, refere a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo Maior, numa mensagem de homenagem a todos os que fizeram e fazem parte da história da corporação.
Também a Câmara Municipal de Campo Maior assinalou o aniversário, deixando uma palavra de reconhecimento aos bombeiros pelo trabalho desenvolvido diariamente em prol da comunidade.
“São 77 anos de entrega incondicional à nossa comunidade”, sublinha o município, que agradece a todos os elementos da corporação por estarem “sempre na linha da frente” na proteção e no socorro da população.
No âmbito das comemorações, realiza-se esta quinta-feira, pelas 19 horas, uma missa na Igreja Matriz de Campo Maior, em memória dos sócios, dirigentes e bombeiros falecidos.
Ao celebrar 77 anos de existência, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo Maior presta homenagem a todos aqueles que contribuíram para o seu percurso e reafirma a continuidade de uma missão dedicada à proteção e ao serviço da comunidade, sob o lema “Vida por Vida!”.
António Beijoca apresenta o livro “GIA – Tudo Está Operacional!” este sábado, 24 de outubro, pelas 10h30, na Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior. A obra aborda o impacto da inteligência artificial (IA) na sociedade e deixa um alerta para a importância de preservar o pensamento crítico perante a crescente utilização destas ferramentas.
Ligado à área da tecnologia, nomeadamente às redes e comunicações, António Beijoca explica que a ideia para o livro, um thriller empresarial, surgiu da observação de comportamentos cada vez mais comuns no quotidiano, marcados pela aceitação quase automática da informação produzida pela inteligência artificial.
“O livro acaba por ser uma forma de dizer às pessoas: não deixem de usar, porque é uma ferramenta útil, mas continuem a ter um pensamento crítico e analítico em relação à informação que recebem”, sublinha o autor.
António Beijoca considera que a facilidade de acesso à informação e a crescente utilização da inteligência artificial para realizar tarefas do dia a dia podem contribuir para uma perda progressiva da capacidade de análise. Como exemplo, aponta a utilização destas ferramentas para elaborar textos e e-mails, alertando para o risco de, no futuro, as pessoas perderem autonomia na realização de tarefas caso fiquem privadas desta tecnologia.
“Estas ferramentas vieram para nos facilitar muito trabalho. Agora, não se perca o sentido crítico e não deixemos que a inteligência artificial passe a fazer tudo por nós”, defende.
O autor revela ainda que o processo criativo de produção da obra decorreu por etapas, através da construção de diferentes situações que acabaram por ser reunidas numa única história. Curiosamente, o desenvolvimento da obra antecedeu o recente destaque mediático em torno da inteligência artificial, coincidindo o lançamento do livro com o crescimento do debate público sobre o tema.
A escolha da Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior para a apresentação tem também uma motivação pessoal. Apesar de a Câmara Municipal de Campo Maior ter disponibilizado o Centro Cultural para acolher a iniciativa, António Beijoca optou por realizar o lançamento na instituição onde se encontra o pai, que tem problemas de mobilidade. “Sendo ele a pessoa mais importante da minha vida, é condição que o meu pai esteja presente no lançamento deste livro”, explica o escritor, destacando a importância do apoio e dos ensinamentos do pai ao longo da sua vida, nomeadamente na concretização dos seus sonhos.
O livro “GIA – Tudo Está Operacional!” encontra-se disponível para compra online através das plataformas digitais da editora Bookmundo e da FNAC. O autor terá também exemplares para disponibilizar na sessão de apresentação, em Campo Maior.
Sinopse da obra: “Alexandre garante que tudo funciona, sem falhas, sem ninguém dar por isso. É administrador de sistemas e a GIA, a inteligência artificial que gere as decisões técnicas da sua empresa, torna esse trabalho ainda mais fácil. Até ao dia em que encontra um erro impossível de explicar. Uma regra de segurança, escrita de forma perfeita, mas com a lógica silenciosamente invertida. Corrige-o sem alarme. Até o mesmo erro, com a mesma assinatura exacta, voltar a aparecer numa empresa completamente diferente, sem qualquer ligação à primeira. Quanto mais Alexandre insiste em perguntar, mais isolado fica dentro da própria empresa que devia querer saber a verdade. Porque o padrão está a espalhar-se por sistemas, sectores e vidas sem nada em comum excepto confiarem todos no mesmo tipo de inteligência artificial. GIA não é uma história sobre máquinas que se revoltam. É uma história sobre o momento em que deixamos de poder confiar cegamente no consenso e sobre o preço de continuar a olhar, mesmo assim.”