Da investigação histórica à inteligência artificial: assim nasceu o projeto musical “Muralhas da Raia”

A história de Campo Maior e da Raia ganha uma nova forma de ser contada através da música. “Muralhas da Raia”, projeto musical criado por Francisco José Trindade, recorre às novas tecnologias e à inteligência artificial para transformar episódios históricos, memórias e lendas da região em canções.

O projeto nasceu, segundo o autor, de uma “singela homenagem” à música, à história e à cultura locais. Embora inicialmente tivesse sido pensado para a literatura, nomeadamente para a criação de um livro, a evolução das ferramentas digitais permitiu-lhe encontrar na música um veículo mais acessível para transmitir a mensagem.

“Partindo de uma ideia de assumir o papel do letrista, não o letrista profissional, mas apenas o iniciante”, explica Francisco José Trindade, o objetivo passou por utilizar as ferramentas atualmente disponíveis para concretizar uma ideia que tinha vindo a desenvolver ao longo do tempo.

O resultado é um conjunto de dez temas que percorrem diferentes momentos da história da região, com particular incidência em Campo Maior (incluindo Ouguela), mas também noutros pontos da Raia, como Elvas.

Da investigação histórica para a música

Por detrás das letras está um trabalho de investigação desenvolvido ao longo dos anos. Francisco José Trindade recorreu a fontes online, bibliografia especializada, textos históricos e informação disponibilizada por instituições, mas também a visitas aos próprios locais históricos. As muralhas, castelos e fortificações da região assumem, por isso, um papel central no processo criativo.

“Muito mais importante do que apenas ler em livros, é vivermos e experienciarmos no local”, afirma, defendendo que o contacto direto com as pedras, as construções e a paisagem ajuda a imaginar as vivências de quem habitou aqueles espaços em épocas passadas.

A partir dessas pesquisas e experiências, o autor foi reunindo apontamentos e trabalhando as palavras com o objetivo de condensar episódios históricos em canções de apenas alguns minutos.

“Por trás de cada canção há uma mensagem que se pretende passar, há uma história que se pretende contar”, sublinha.

História contada ao ritmo dos novos tempos

A opção pela música está também relacionada com a necessidade de encontrar novas formas de chegar ao público, sobretudo às gerações mais jovens.

Francisco José Trindade considera que a sociedade atual é marcada pela rapidez e pela enorme quantidade de conteúdos disponíveis, sobretudo nas plataformas digitais. Nesse contexto, defende que os projetos culturais precisam de encontrar formas diferentes de captar a atenção.

“Temos que arranjar forma de transmitir a mensagem que queremos, mas tendo em conta sempre que o público tem pouco tempo para nos dispensar”, explica.

É nesse cenário que surge a utilização da inteligência artificial como ferramenta de criação e como forma de democratizar o acesso à produção musical.

Para o autor, as novas tecnologias permitem que alguém sem formação profissional na área possa desenvolver um projeto, partindo de uma ideia e de conhecimentos básicos de composição e escrita.

“Franky da Raia”, uma personagem para contar a história

O projeto não é, contudo, apresentado em nome de Francisco José Trindade. O autor optou pelo pseudónimo “Franky da Raia”, criando uma espécie de personagem para assumir a vertente musical e histórica do projeto.

A escolha resulta, em parte, do nome “Frank”, pelo qual era conhecido em experiências anteriores no mundo digital, ao qual acrescentou “da Raia”, numa referência direta à região e à identidade que pretende valorizar.

“Não é o Francisco que tem os seus determinados gostos, que tem as suas determinadas convicções”, explica. “Uma terceira pessoa foi aqui criada neste mundo digital para que nesse próprio mundo consiga contar que existiu esta terra, existiram estas ações, para contar aqui essa história.”

Dez canções para contar uma história

O projeto começou por contemplar dez temas, mas a composição inicial acabou por sofrer alterações. Um dos temas (“Nasce o Povoado”) foi dividido em dois, levando a que a primeira fase do lançamento ficasse composta por nove canções.

A estratégia passou por disponibilizar os temas de forma faseada, um por dia, a partir de 1 de setembro, procurando criar continuidade e expectativa junto do público.

Entre as histórias abordadas encontra-se a de Ouguela e a queda do seu castelo perante as forças castelhanas. É precisamente este episódio que dá origem ao tema mais sombrio do projeto.

Para Francisco José Trindade, contar a história significa também abordar os momentos de derrota e sofrimento, e não apenas as vitórias. “Nem sempre de vitórias se fazem as guerras. Há muitas batalhas que ganhamos, mas também, infelizmente, há outras que perdemos”, afirma, dedicando a canção a todos aqueles que lutaram e contribuíram para a construção da nação.

“As muralhas não morrem”

Para evitar que o projeto terminasse com esse tom de tristeza, o autor decidiu acrescentar uma décima canção: “As Muralhas Não Morrem”. O tema funciona como um recap dos nove anteriores, recuperando elementos das diferentes histórias e concentrando a principal mensagem do projeto: a importância de preservar a memória e o património histórico.

Para Francisco José Trindade, as muralhas não devem ser vistas apenas como “umas pedras que estão ali empilhadas”. São parte da cultura, da história e da identidade coletiva.

O autor reconhece o trabalho desenvolvido na recuperação das fortificações e na criação de centros interpretativos, mas considera que também é necessário manter viva a memória através de iniciativas culturais que consigam chegar às novas gerações.

“É importante que na memória do povo haja quem também dê o seu pequeno contributo, levante a sua voz e, com a ajuda das ferramentas que tem ao seu dispor, consiga manter acesa a chama da cultura”, defende.

“Muralhas da Raia” assume-se, assim, como uma experiência que cruza história, música e tecnologia, procurando aproximar o passado do presente e levar episódios da história de Campo Maior e da região raiana a um público habituado a consumir cultura de formas cada vez mais rápidas e digitais.

Mais do que um álbum, que o autor prevê que venha a ter uma versão em inglês num futuro breve, o projeto pretende ser uma forma contemporânea de preservar e transmitir memória: lembrar de onde veio a região, o que viveu e como essas histórias continuam a fazer parte da identidade de quem hoje habita a Raia.

Os temas de Franky Da Raya estão disponíveis no YouTube e no Spotify.