O que influencia as escolhas dos consumidores, como planeiam as compras e que fatores determinam a escolha das lojas e dos produtos? Estas são algumas das questões analisadas no estudo “O Novo Consumidor do Retalho”, realizado pela Behavioral Insights Unit da Católica Lisbon School of Business & Economics, que a DECO, com o apoio da Mercadona, apresentado no Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, entre as 9h30 e as 13h00, na Sala Fernando Pessoa do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
A investigação revela que noventa e três por cento dos portugueses realizam mais de metade das suas compras alimentares em grandes superfícies, ainda que recorram ao comércio tradicional para adquirir produtos frescos. O estudo demonstra também que o planeamento é uma prática consolidada na gestão do orçamento das famílias, com oitenta e dois por cento dos inquiridos a planear regularmente as suas idas ao supermercado através do aproveitamento de promoções, da comparação de preços, da escolha de marcas próprias e do corte em bens não essenciais, valorizando sobretudo a relação qualidade e preço na hora de decidir.
Além do planeamento, a análise salienta a forte adesão às estratégias de fidelização e a influência das campanhas promocionais na decisão de compra. Cerca de oitenta e três por cento dos consumidores utilizam frequentemente cartões ou aplicações de fidelização e sessenta e seis por cento escolhem a loja com base nos descontos acumulados, sendo os incentivos imediatos os principais responsáveis por compras não planeadas. O estudo aborda ainda a complementaridade do comércio eletrónico, as preocupações com a transparência comercial, como no caso da redução de quantidade sem descida proporcional de preço referida por sessenta e oito por cento dos inquiridos, e o interesse crescente pela sustentabilidade, promovendo uma reflexão alargada sobre o impacto destas dinâmicas no acesso a decisões de compra mais informadas e conscientes.
Tudo para saber sobre o assunto na edição desta semana da rubrica da DECO, com Helena Guerra, do Gabinete de Inovação e Projetos da Associação para a Defesa do Consumidor. Para ouvir no podcast abaixo:
A Aquamaior foi novamente distinguida pela ERSAR – Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos com o prestigiado Selo de “Qualidade Exemplar da Água para Consumo Humano”. Este galardão, atribuído a 57 entidades gestoras em Portugal continental, reconhece a excelência, o rigor técnico e a eficiência operacional na gestão e fornecimento de água de elevada qualidade à população.
Criada em 2009, esta distinção da ERSAR avalia critérios exigentes de segurança e saúde pública. Entre os requisitos necessários estão a submissão atempada do Programa de Controlo da Qualidade da Água (PCQA), o cumprimento integral de 100% das análises previstas e o alcance de pelo menos 99,0% nos valores paramétricos legais e de controlo de rotina, somados aos critérios do Regulamento da Edição 2026.
Para a Aquamaior, a renovação deste selo traduz o reconhecimento do trabalho diário e dedicado da sua equipa no concelho de Campo Maior. O prémio reforça a confiança dos consumidores na água da torneira e consolida o compromisso contínuo da empresa com a proteção da saúde pública e a sustentabilidade ambiental.
O Centro de Negócios Transfronteiriço de Elvas recebe, até domingo, 25 de outubro, a décima edição da Iberoaves, a já tradicional exposição ornitológica organizada pela Associação Ornitológica de Elvas.
A iniciativa, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Elvas e da Junta de Freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova, abriu portas na manhã desta sexta-feira, dia 23, reunindo perto de 1.100 aves a concurso e criadores de Portugal e Espanha, numa edição que volta a destacar a ligação entre os dois lados da fronteira e a diversidade do universo da ornitologia.
João Pepê, presidente da Associação Ornitológica de Elvas, considera que a realização de dez edições da Iberoaves representa um marco importante para a organização. Segundo o responsável, a exposição tem vindo a consolidar-se e a atrair cada vez mais participantes, ao ponto de serem os próprios expositores a manifestar interesse em marcar presença.
“Esta é, talvez, a nível da Península Ibérica, a maior exposição ibérica”, afirma, destacando a participação equilibrada de criadores portugueses e espanhóis, que representam, respetivamente, cerca de 45% e 55% dos participantes.
Apesar de este ano se registar uma redução de aproximadamente cem aves em relação à edição anterior, a organização considera o balanço positivo, tendo em conta as dificuldades sentidas no atual contexto. João Pepê sublinha que a exposição continua a mobilizar participantes de várias regiões do país, incluindo o Algarve, Lisboa e Alentejo Central, sobretudo de Montemor-o-Novo e Vendas Novas), além de criadores da Extremadura espanhola, de zonas como Cáceres e Don Benito.
Canários, aves exóticas e psitacídeos em exposição
A diversidade das espécies é um dos principais atrativos da Iberoaves. Entre as aves presentes encontram-se canários de cor, canários de porte, aves exóticas e diferentes variedades de psitacídeos, incluindo espécies americanas e australianas, bem como aves de maior porte.
O presidente da Associação Ornitológica de Elvas salienta ainda a presença de exemplares que nunca tinham sido apresentados na exposição, contribuindo para tornar esta edição especialmente diversificada.
A Iberoaves é simultaneamente uma exposição e um concurso, no qual as aves são avaliadas e distinguidas de acordo com os critérios próprios de cada secção. Os animais premiados estão identificados, nas respetivas gaiolas, com rosetas que indicam a classificação obtida — primeiro, segundo ou terceiro prémio —, bem como o número do criador e da ave.
João Pepê esclarece que alguns exemplares poderão estar disponíveis para cedência, mas aconselha os visitantes interessados em levar uma ave para casa a confirmar previamente essa possibilidade junto dos responsáveis. Nem todas as aves expostas podem ser adquiridas, uma vez que algumas se encontram destinadas a outras competições, incluindo o Campeonato Nacional.
Uma oportunidade para aproximar os mais novos da natureza
Além da vertente competitiva, a exposição pretende proporcionar ao público um contacto próximo com as aves e com o trabalho desenvolvido pelos criadores. Para João Pepê, a iniciativa assume particular importância junto das crianças, permitindo-lhes observar ao vivo espécies que muitas vezes conhecem apenas através dos computadores, da televisão e dos desenhos animados.
Também João Rondão, presidente da Junta de Freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova, que marcou presença na abertura da exposição, destaca a importância de dar a conhecer esta diversidade aos mais novos. O autarca considera que a exposição constitui uma oportunidade para as famílias visitarem o espaço, conhecerem as diferentes espécies e, caso exista essa possibilidade, adquirirem aves para ter em casa.
João Rondão salienta ainda o contributo da iniciativa para o concelho, valorizando a participação de criadores portugueses e espanhóis. A Junta de Freguesia, garanta, mantém a colaboração com a Associação Ornitológica de Elvas, através de apoio financeiro e logístico, de acordo com as necessidades da organização.
Preparação ao longo de todo o ano
A concretização da Iberoaves exige um trabalho contínuo por parte da associação, que, ao longo do ano, estabelece contactos com criadores e expositores dos dois países e prepara as condições necessárias para a participação das aves. João Pepê sublinha que o transporte e o bem-estar dos animais exigem cuidados específicos, fundamentais para assegurar a realização da exposição.
O responsável considera ainda que a Iberoaves se tornou um dos momentos mais importantes da atividade da associação e uma referência para os criadores que procuram participar no evento em Elvas. Nesse sentido, a organização espera continuar a consolidar a dimensão ibérica da iniciativa, reforçando a presença de expositores e mantendo o interesse do público numa exposição que alia competição, divulgação da ornitologia e contacto com a natureza.
Horários de visita
A décima edição da Iberoaves pode ser visitada no Centro de Negócios Transfronteiriço de Elvas até domingo, dia 25 de outubro.
Esta sexta-feira, o evento pode ser visitado das 14h30 às 18h00; amanhã, sábado, 24 de outubro, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 18h00; e domingo, 25 de outubro, das 10h00 às 12h30, estando o encerramento previsto para as 14h30.
A entrada na exposição constitui uma oportunidade para conhecer de perto cerca de 1.100 aves, descobrir diferentes espécies e acompanhar o trabalho dos criadores que participam nesta iniciativa transfronteiriça.
O Comando Territorial de Portalegre da Guarda Nacional Republicana (GNR), através do Núcleo de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas (NIAVE) e com o apoio do Posto Territorial de Campo Maior, deteve no passado dia 21 de outubro de 2026 um homem de 50 anos, de nacionalidade estrangeira, suspeito da prática do crime de violência doméstica no concelho de Campo Maior.
As diligências policiais efetuadas no âmbito da investigação permitiram apurar que o indivíduo exercia violência física e psicológica continuada contra a vítima, a sua esposa de 35 anos, culminando a ação das autoridades no cumprimento de um mandado de detenção.
Presente no Tribunal Judicial de Portalegre a 22 de outubro de 2026 para primeiro interrogatório judicial, foram aplicadas ao arguido várias medidas de coação, designadamente a obrigatoriedade de apresentação periódica mensal na esquadra da GNR da sua área de residência durante a sua permanência em Portugal, a saída imediata do domicílio conjugal e a proibição de contacto ou aproximação da vítima e da sua residência a uma distância inferior a 500 metros por qualquer meio.
A GNR aproveita para reforçar que a violência doméstica é um crime público cuja denúncia constitui um dever coletivo, lembrando que as situações de emergência ou pedido de ajuda podem ser reportadas através do número europeu 112, do Portal Queixa Eletrónica, no posto policial mais próximo ou através de canais dedicados como a aplicação App MAI112 e o serviço SMS Segurança.
A 3ª edição do ALERtejo – Encontro Literário de Elvas, que se iniciou esta quinta-feira, 22 de outubro, com sessões dedicadas à comunidade escolar, apresenta, até domingo, dia 25, um programa repleto de personalidades da literatura e da cultura portuguesa, promovendo o contacto direto entre o público e grandes autores de referência.
Entre as personalidades de maior destaque nacional que marcam presença nesta edição dedicada ao feminino estão Dulce Maria Cardoso, uma das vozes mais consagradas e aclamadas da ficção contemporânea, Inês Meneses, comunicadora e radialista de renome, Tozé Brito, histórico compositor da música portuguesa, e Paula Bochecha Lebre, que traz a Elvas um dos momentos mais emotivos do programa.
A par dos nomes mais conhecidos da grande praça, o ALERtejo continua fiel ao seu propósito de dar palco a novos talentos, ensaístas e investigadores de ambas as margens da raia.
O painel de convidados conta ainda com intervenções de Susana Amaro Velho, Madalena Sá Fernandes, Teresa Simão e do historiador espanhol Heliodoro Núñez López.
A dimensão educativa do festival é assegurada pela autora Maria Inês Almeida, que se encontra nas escolas do concelho em sessões exclusivas com os alunos.
Um incêndio deflagrou na tarde desta quinta-feira, 22 de outubro, na casa das máquinas de apoio ao lago situado no Jardim Municipal de Campo Maior.
O intenso cheiro a queimado, proveniente de máquinas e cabos elétricos, alertou, por volta das 17 horas, as pessoas que se encontravam no local. GNR e Bombeiros de Campo Maior deslocaram-se, de imediato, ao local.
A rápida intervenção dos meios de socorro permitiu circunscrever o incêndio à casa das máquinas, evitando a sua propagação. Durante a operação, foram ainda retirados do interior do espaço alguns jerricans que, alegadamente, conteriam combustível.
As causas do incêndio são, para já, desconhecidas.
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo Maior assinalou esta quinta-feira, 22 de outubro, 77 anos de história ao serviço da população, numa data que o presidente da direção, Luís Fava, considera uma oportunidade para celebrar o percurso da instituição, homenagear os bombeiros que já partiram e refletir sobre os desafios que se colocam ao futuro.
As comemorações decorreram ontem de forma simples, no seio da instituição, com o corte do bolo de aniversário e um momento de convívio entre os elementos da corporação. Ao final da tarde, a Igreja Matriz da vila recebeu a tradicional missa por alma dos sócios, dirigentes e bombeiros já falecidos.
“São 77 anos a servir, são 77 anos a proteger e são 77 anos a fazer a diferença”, sublinha Luís Fava, que aproveita a efeméride para deixar uma palavra de reconhecimento a todos os bombeiros, sem esquecer aqueles que já faleceram e que, ao longo dos anos, dignificaram a farda da corporação.
Apesar do percurso construído, o responsável admite que o futuro continua a trazer desafios, sobretudo no que diz respeito à falta de voluntários, uma dificuldade que afeta os bombeiros a nível nacional e que também se faz sentir em Campo Maior.
“Há muita falta de bombeiros. Nós aqui em Campo Maior fazemos tudo por tudo para agregar mais bombeiros e, mesmo assim, temos dificuldade, como tem o distrito todo”, afirma.
Para contrariar esta realidade, a associação tem procurado aproximar-se da comunidade, nomeadamente através de visitas às escolas e da realização de ações de formação. A instituição disponibiliza ainda uma sala de formação a quem pretenda utilizá-la, numa estratégia que procura despertar o interesse dos cidadãos de Campo Maior pela atividade dos bombeiros e pelo voluntariado.
Outra das preocupações prende-se com os encargos financeiros associados à atividade operacional, em particular com os custos dos combustíveis, que representam uma despesa significativa para uma instituição que depende da mobilização permanente de viaturas.
Luís Fava reconhece as dificuldades, mas defende que é necessário encontrar alternativas para garantir a sustentabilidade da associação. Entre as soluções passa por reforçar a realização de transportes não urgentes, uma atividade que poderá contribuir para gerar receitas e ajudar a fazer face às despesas.
“Temos dificuldades derivadas, obviamente, ao preço dos combustíveis, mas temos que nos reinventar, achar soluções que tragam mais benefícios para a associação, fazendo transportes não urgentes com mais frequência”, explica.
Ao completar 77 anos, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo Maior mantém, assim, o compromisso de servir e proteger a população, procurando simultaneamente atrair novos elementos para a corporação e encontrar respostas para os desafios financeiros e humanos que marcam o setor.
A Biblioteca Municipal de Elvas Dra. Elsa Grilo recebeu, ao início da tarde desta quinta-feira, 22 de outubro, a inauguração da exposição “Um Lugar para Todas as Pessoas”, uma iniciativa que pretende sensibilizar a comunidade para o combate à pobreza, à exclusão social, ao racismo e ao discurso de ódio, promovendo a igualdade e o respeito pela diversidade.
A iniciativa assinala conjuntamente o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, celebrado a 17 de outubro, e o Dia Municipal para a Igualdade, comemorado a 24 de outubro.
Promovida pela Câmara Municipal de Elvas e pelo Núcleo Distrital de Portalegre da Rede Anti-Pobreza (EAPN Portugal), a ação contou com o envolvimento de diversas instituições e associações do concelho, que foram desafiadas a criar peças em forma de sinais de trânsito, acompanhadas de mensagens alusivas à inclusão, à igualdade de oportunidades e ao respeito por todas as pessoas.
Após a inauguração da exposição, e em declarações à Rádio ELVAS, Sérgio Ventura, vereador na Câmara Municipal de Elvas, destacou a importância de manter presentes estas temáticas ao longo de todo o ano, sublinhando o papel da colaboração entre o município, as instituições, as associações, as escolas, as juntas de freguesia, as forças de segurança e as entidades privadas.
“Eu diria que nos devemos lembrar todos os dias destas temáticas”, afirmou o autarca, salientando o trabalho desenvolvido em conjunto para ultrapassar os obstáculos associados à pobreza e à desigualdade.
Sérgio Ventura recordou ainda a dimensão do problema da pobreza em Portugal, referindo que “são, aproximadamente, quase dois milhões de pessoas que as variáveis indicam que estão no limiar da pobreza”.
Para o vereador, a responsabilidade de contribuir para uma sociedade mais solidária é partilhada por todos, defendendo a importância de ajudar quem mais precisa, de forma a promover o bem-estar e a felicidade das pessoas.
Sobre a exposição, o autarca destacou a participação das instituições e das escolas do concelho na criação dos sinais de trânsito, que transmitem mensagens que devem “servir de reflexão” para a comunidade.
A escolha dos sinais de trânsito pretende simbolizar o acolhimento e a importância de regras de convivência que contribuam para uma sociedade mais justa, respeitadora e inclusiva.
Com esta iniciativa, as entidades promotoras pretendem reforçar o envolvimento da comunidade na construção de um concelho onde a diversidade seja respeitada e todos tenham acesso a oportunidades, afirmando Elvas como “Um Lugar para Todas as Pessoas”.
Feira do Livro do ALERtejo – Encontro Literário de Elvas regressa à Casa da Cultura de Elvas, decorrendo de sexta-feira a domingo, de 23 a 25 de outubro, com uma oferta literária ampla e diversificada.
O evento junta mais de 150 títulos dirigidos a todas as idades e preferências, reunindo catálogos de mais de dez editoras provenientes de todo o país. Com o objetivo de promover a leitura e celebrar a criação literária, o certame dará visibilidade aos livros de todas as autoras e dinamizadores presentes.
A seleção bibliográfica encontra-se organizada por diversas áreas temáticas, que incluem secções dedicadas a Escrever o Feminino, Sobre o Alentejo, Autores de Elvas, Literatura de Espanha, Fundação José Saramago, Clássicos e Outros, e ainda uma oferta especial para Miúdos e Graúdos.
Entre os principais destaques da programação e das prateleiras, a feira assinala o lançamento do primeiro livro de Paula Lebre, intutulado “Beatriz, uma melodia interrompida”, a par do novo livro infantil inspirado no universo de Florbela Espanca. Os visitantes poderão também conhecer a nova edição trilingue dedicada a clássicos da literatura feminina nacional, a nova coleção editada pelo Museu Nacional do Teatro e da Dança e a segunda parte do projeto The Elvas Project, focado no estudo e divulgação do único Cancioneiro de Elvas.
A Feira do Livro convida toda a comunidade de Elvas e da região a visitar a Casa da Cultura durante o fim de semana e a descobrir todas as novidades literárias.
Para mais informações sobre o evento e consulta de conteúdos adicionais, a organização disponibiliza o portal oficial em alertejo.pt.
No seu primeiro livro, a mãe de Beatriz Lebre transforma a dor da perda da filha num testemunho pessoal e num alerta para a violência de género. A obra dá a conhecer a jovem mulher alegre, apaixonada pela música, pela literatura e pelas artes, cuja vida foi tragicamente interrompida.
Beatriz, Uma Melodia Interrompida é o título do primeiro livro de Paula Lebre, já disponível nas livrarias de todo o país. A obra nasce da necessidade de contar a história da filha, vítima de homicídio a 22 de maio de 2020, mas assume também uma dimensão de denúncia social, procurando sensibilizar os leitores para a violência contra as mulheres e para a urgência de combater este flagelo.
Em entrevista à Rádio ELVAS, Paula Lebre faz questão de afastar, desde logo, a ideia de que se considera escritora. “Eu não sou escritora. Escrevi um livro, que nem é nada de criativo, é só um relato de uma vida, de um acontecimento e de um sofrimento”, afirma, descrevendo a obra como um testemunho pessoal sobre a filha e as circunstâncias trágicas que marcaram a sua morte.
Mais do que uma homenagem, expressão com a qual não se identifica, a autora considera que o livro pretende chamar a atenção para uma realidade que continua a exigir respostas da sociedade. “Aqui o que está em causa é uma fragilidade da condição humana que é preciso perceber e conter, que é a violência”, sublinha.
Paula Lebre alerta para a dimensão da violência contra as mulheres e para a necessidade de ir além dos números, procurando dar-lhes um rosto e uma história. Através da experiência de Beatriz, espera que os leitores compreendam melhor a gravidade deste problema. “Pelo menos que com a história, as pessoas, pela afetividade que possam sentir, liguem e sintam mais os números, o significado daqueles números grotescos e atrozes”, explica, lembrando que, “são duas mulheres mortas, por mês”, em média, em Portugal.
A mãe de Beatriz critica também a tendência para responsabilizar as vítimas pela violência de que são alvo, questionando os comportamentos e as escolhas das mulheres como se estes pudessem justificar a agressão. “Nada justifica um assassinato, seja mulher, seja homem”, afirma, defendendo que esta forma de pensar tem de ser desconstruída. Para Paula Lebre, a educação é uma das dimensões fundamentais para uma resposta estrutural e coletiva ao problema.
Apesar da dureza dos acontecimentos que relata, “Beatriz, Uma Melodia Interrompida” não pretende ser um livro sombrio. A autora procurou preservar a personalidade da filha e dar a conhecer os seus interesses, a sua alegria e a paixão pelas artes. “Não é um livro sombrio. Não deixa de ser belo, porque tem lá tudo o quanto ela mais amava, que era arte, cinema, música, poesia, literatura”, revela.
A música ocupa um lugar especial na narrativa, funcionando como uma banda sonora que acompanha a leitura. Paula Lebre explica que escolheu canções que faziam parte da vida familiar e da relação com a filha, integrando-as no texto como forma de criar pausas e tornar a experiência de leitura mais envolvente.
“Eu pretendia que fosse uma perolazinha. Não é nenhum diamante literário, nem nada disso, mas que seja uma pérola bonita e que dê prazer às pessoas e que emocione”, afirma, acrescentando que deseja que o livro contribua para que os leitores não se resignem perante a violência.
Um livro nascido da necessidade de compreender
A escrita surgiu de forma inesperada. Inicialmente, Paula Lebre preparava um testemunho para integrar uma compilação de textos sobre a vida de Beatriz, reunidos por amigos. Foi o músico, realizador e escritor Filipe Melo, amigo da filha, quem a incentivou a transformar esse material numa obra autónoma. “Ele é que me disse: ‘Paula, isto não é um testemunho, isto é um livro que tens de fazer à parte’”, recorda. A sugestão foi decisiva para que avançasse com um projeto no qual, inicialmente, não acreditava.
O processo de escrita foi também acompanhado por uma procura de respostas para a tragédia. Durante o luto, a autora dedicou-se à leitura de filosofia, teologia, psicologia e sociologia, procurando compreender o que tinha acontecido e os fenómenos sociais associados ao feminicídio, ao machismo e ao patriarcado.
O texto foi depois trabalhado em conjunto com a editora (Penguin Livros), num processo de organização e revisão que permitiu estruturar os capítulos e definir os momentos de pausa. Paula Lebre descreve o manuscrito inicial como um trabalho em bruto, que foi sendo aperfeiçoado com a colaboração editorial.
A narrativa é assumidamente pessoal, construída a partir da perspetiva de uma mãe que procura compreender a perda e preservar a memória da filha. Tudo o que é relatado, garante, corresponde à verdade, incluindo as dúvidas e as interrogações que continuam sem resposta.
Preservar a memória de Beatriz
Ao longo da entrevista, Paula Lebre recorda a ligação de Beatriz à música e ao teatro, evocando a imagem da filha sentada ao piano, uma das memórias que permanece viva entre aqueles que a conheceram.
Entre as recordações partilhadas está também a canção “Into My Arms”, de Nick Cave, que Beatriz cantava com amigos do grupo de teatro da universidade e que a mãe também cantava com ela. A descoberta desta coincidência, já depois da morte da filha, foi um dos momentos que Paula Lebre descreve como especialmente marcantes.
São estas memórias que ajudam a manter presente a personalidade de Beatriz e que dão sentido à publicação do livro. “A Beatriz tem o nome num livro para não morrer outra vez”, afirma, estabelecendo um paralelo com a atribuição de nomes de pessoas falecidas a ruas, como forma de perpetuar a sua memória.
A autora reconhece que a perda de um filho é uma ferida para toda a vida e que a morte violenta de Beatriz constitui uma rutura que não pode ser comparada a um acontecimento natural. É precisamente por considerar que esta morte não pode ficar sem significado que decidiu transformar a sua experiência num testemunho público.
“Eu não me conforme com a inutilidade desta morte. Esta morte tem que ter um significado. Por isso também o livro”, explica.
Apresentação na terceira edição do ALERtejo em Elvas
A publicação de Beatriz, Uma Melodia Interrompida coincide com a terceira edição do ALERtejo, encontro literário que decorre em Elvas e que, este ano, tem como tema central a escrita no feminino.
Paula Lebre considera a coincidência particularmente feliz, sobretudo porque o livro passou por várias vicissitudes relacionadas com questões jurídicas antes de chegar às livrarias. A apresentação em Elvas, agendada para sábado, 24 de outubro, representa, por isso, mais um momento significativo no percurso da obra.
A autora admite que não está a planear escrever outros livros e insiste que não se vê como escritora. “Desde a morte da minha filha, não consigo prever nada na minha vida, nem consigo planear nada, e todo o meu comportamento tem sido conforme as circunstâncias”, confessa.
Para já, a expectativa é que Beatriz, Uma Melodia Interrompida chegue aos leitores, emocione e contribua para uma reflexão mais profunda sobre a violência contra as mulheres. Um livro que procura preservar a memória de Beatriz e dar visibilidade a uma realidade que não pode ser ignorada.
Beatriz Lebre, uma vida interrompida pelo femicídio
Beatriz Lebre foi uma das 19 mulheres que morreram vítimas de femicídio, em 2020, em Portugal. Na noite de 22 de maio, um colega do curso de mestrado dirigiu-se à casa de Beatriz e, quando ela lhe abriu a porta, agrediu-a brutalmente com um bastão. Depois, transportou o corpo na bagageira do carro e deitou-o ao rio Tejo.
O alegado autor do crime, que não chegou a ser julgado, suicidou-se cerca de um mês e meio depois na cadeia.
A entrevista completa a Paula Lebre para ouvir no podcast abaixo: