Médica acusada de “não prestar cuidados necessários” em Campo Maior

Desde o passado dia 21 de dezembro que Rosimar Oliveira, residente em Campo Maior, enfrenta sérias dificuldades para ser tratada a uma infeção pulmonar viral, que lhe terá surgido no seguimento de uma infeção por Covid-19. A verdade é que esta mulher acusa a sua médica de família de não a acompanhar e prestar os cuidados necessários, assim como de discriminação e racismo.

Tudo começa quando, nesse dia, faz um teste numa das farmácias de Campo Maior e testa positivo à Covid-19. A 22 de dezembro, segundo relata, tendo o teste PCR marcado para o dia seguinte, entra em contacto com a médica de família, por não se estar a sentir bem e pede-lhe que lhe prescreva medicação, por já ter estado antes infetada e ter tido “febre, muitas dores de cabeça, calafrios, diarreia e vómitos”, para além de sofrer, diversas vezes, de amigdalites. A médica não acede ao pedido e manda-a tomar, apenas, paracetamol, assegurando que tudo irá passar, até porque já lhe tinham sido administradas duas doses da vacina.

Já depois do teste PCR realizado, e comprovada a infeção por Covid-19, Rosimar volta a contactar a médica de família, que acaba por lhe prescrever alguma medicação, uma vez que “já tinha mais tosse”. Aconselha-a a ir até ao Hospital de Elvas, mas Rosimar, por estar infetada com Covid-19, não quer.

“Ela ligava-me a cada três dias e foi quando me disse que eu ia ficar bem”, relata, assegurando que, apesar da medicação, continuava sem melhoras.

No dia 3 de janeiro, Rosimar dirige-se ao Centro de Saúde, e a médica volta a mandá-la para o hospital, tratando da credencial para ser transportada até Elvas. Foi no Hospital de Santa Luzia que lhe foi diagnosticada, após os vários exames realizados, uma infeção pulmonar viral.

Entretanto, contactada pela médica de família, Rosimar informa-a do seu estado de saúde, depois de já ter testado negativo à Covid-19, no teste efetuado no Hospital de Santa Luzia. Apesar de respeitar o tratamento que lhe foi traçado, Rosimar continuava a não se sentir bem e deslocou-se ao Centro de Saúde de Campo Maior, até porque precisava de uma credencial para dar continuidade ao tratamento, no Hospital de Elvas. Contudo, revela que a médica não a quis atender. Nesse momento, e em lágrimas, decide ligar para a GNR. Os militares aconselham-na a insistir com a médica para que a atenda; caso contrário, a escrever no livro de reclamações. E a assim fez. “Esta médica, mais uma vez, está-me a tentar prejudicar, porque não é a primeira vez que ela faz isto, mas agora é mais grave e é crime, é omissão, está na lei da medicina”, conta.

Esta mulher volta ao Hospital de Elvas, mas é-lhe dito, segundo relata, pelo subdiretor do mesmo, que terá de ser a médica de família a tratar da autorização para prosseguir com o tratamento. Acaba por dar entrada, mais tarde, nas urgências, sendo que o médico que já antes a tinha atendido, diz-lhe que não está curada e precisa de ficar, de baixa, pelo menos 30 dias, dado que trabalha num restaurante onde, muitas vezes, tem de entrar numa câmara fria. Esta baixa, contudo, só poderia ser passada pela médica de família.

Apesar da medicação, os sintomas não desaparecem e Rosimar decide ligar para o SNS24. Já um pouco melhor, e mais tarde, regresso ao Centro de Saúde de Campo Maior, para uma consulta aberta, em que a médica de família lhe diz, alegadamente, ao observar os exames feitos no Hospital de Elvas, que não tem nada. “A senhora não tem nada, está tudo normal, não tem infeção nenhuma”, recorda Rosimar as palavras da médica, adiantando que acabou por lhe passar uma baixa de apenas três dias, quando, em Elvas, lhe tinham dito que precisava de ficar, pelo menos, um mês, em repouso.

Passados três dias, na passada sexta-feira, 14 de janeiro, Rosimar regressa ao Centro de Saúde e é atendida por uma outra médica. Garante que esta profissional acaba por confirmar o diagnóstico do médico do hospital de Elvas e tecer duras críticas à médica de família desta mulher, por não a acompanhar e não tratar de todos os procedimentos para que possa recuperar. “Ficou indignada pelo facto de ser a segunda paciente a quem a doutora estava a fazer isto e que ela não tem obrigação de fazer as coisas burocráticas de uma médica de quem eu sou utente”, revela. “É ela que tem de tratar de si, de fazer todo o procedimento consigo”, recorda ainda Rosimar as palavras dessa outra médica do Centro de Saúde.

Sem conseguir o prolongamento da baixa, Rosimar consegue entrar em contacto com o médico que a acompanhou em Elvas. Este acaba por lhe dizer que, tendo em conta a situação, e não compreender a atitude da sua médica de família, lhe irá fazer chegar um relatório clínico.

Desesperada, esta mulher acusa a sua médica de família, entre outros, de crime, discriminação e racismo, assegurando que, contrariamente ao que diz, não está em condições de regressar ao trabalho. Tendo em conta a situação, Rosimar voltou a escrever no livro de reclamações do Centro de Saúde de Campo Maior. Sem o prolongamento da baixa, e sem poder regressar ao trabalho, esta mulher fica assim impedida de receber a prestação que lhe deveria ser atribuída para compensar a perda de remuneração.

Ontem, a médica de família acabou por passar baixa médica à utente, até dia 21 deste mês, garantindo-lhe que deixa de ser sua médica.

O porta-voz da Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano, Ilídio Pinto Cardoso, contactado pela Rádio Campo Maior, referiu-nos que a ULSNA não presta declarações sobre estes assuntos, uma vez que a utente já escreveu no Livro de Reclamações e o processo seguirá os trâmites legais.